Gato de Salto

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Premiação Melhor do Brasil na Europa 2022


Sempre me perguntam quando eu "virei" gay. Eu sempre soube, nasci assim. Quando criança, possuía "namorados imaginários" que me faziam companhia na escola ou nas tardes de verão. Mas do que isso, sempre carreguei a cruz de ser "feminino". Comecei gostando de carrinhos, mas logo passei para as bonecas, o que chocou bastante meus pais.


Um ou outro espírito de luz, os explicou que estava tudo bem, o filho deles era normal. Homofobia? Sim, é uma conhecida de longa data. Dançava sempre com muita vontade as músicas de abertura das novelas das oito. Sabia todas as coreografias de axé e era feliz até eu entender que a "homofobia" não era minha amiga. Logo começaram as ofensas na escola e os famosos "te pego na saída", "bichinha", "veadinho" e cia.


Ensinava coreografias para minhas amigas no recreio e detestava educação física, pois era forçado a jogar futebol com quem me ofendia. Na adolescência não pude aprender ballet, mas fui permitido treinar Kung-Fu. Sempre amei o samba e o Carnaval. Assistia os desfiles pela TV e sonhava em fazer parte. Nunca gostei das marchinhas de carnaval. A "cabeleira do Zezé" sempre foi um trauma. Quando tocava, eu era empurrado para o meio do círculo e todos riam de mim. Com o tempo aprendi a me amar e aceitar, mas não tinha forças para me afirmar.


Cresci com ansiedade, ataques de asma e bronquite nervosa e alérgica. Consegui "escapar" e sair do Brasil em 2007. Tinha passado no vestibular de Dança e meus pais, confusos e na época financeiramente estáveis, decidiram me mandar pro Canadá pra aprender inglês e "pensar novamente" se a dança era o que eu realmente queria.


Aprendi inglês, francês e a liberdade. Vi o que era viver numa sociedade aberta e decidi não voltar. Me apaixonei e me mudei pra Áustria em 2009, acompanhando aquele que me me amava pelo que eu era. Entrei na Universidade e comecei estudar tradução. Depois de alguns anos ainda tendo dificuldade em me adaptar e a aprender o idioma, entrei em depressão.


Meu velho amigo samba me ajudou, aquele que aprendi a dançar na rua, nos tempos de pré-escola. Ele me deu forças para viver, me curou. Decidi sambar professionalmente em 2015 de forma inovativa: no salto alto. Comecei a dar e fazer aulas, me formar, me apresentar. Virei passista e desfilei em várias escolas de Samba do Carnaval do Rio de Janeiro. Mas foi fora do Brasil, onde me senti mais amado. Aprendi a ensinar a técnica de Salto alto e samba e obtive grande sucesso. Entendi que mulheres também são vítimas de preconceito e ensinei minhas alunas a se amarem e aceitarem. Hoje elas são fortes e capazes de se apresentar, erguer a voz e se afirmarem.


Sou muito grato por toda a dor que enfrentei e por ter sido capaz de transformá-la em força e inspiração para tanta gente. Hoje, 6 anos após começar minha jornada professional no Samba, meu nome virou uma marca e é respeitado no mundo todo como defensor da causa LGBTQIA+ dentro do mundo do samba. Meu ativismo vem em forma de Samba no Salto Alto, maquiagem, plumas e da quebra de estereótipos. Acredito que o samba é livre. É uma forma de arte onde todos podem se expressar. Não é uma dança feita para objetificar e sensualizar a mulher. O melhor jeito de quebrar esse sexismo, é um homem de salto sambando linda e elegantemente, não?


Tive o prazer de ministrar aulas de Samba em vários países da Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, Israel e em lugares onde nunca imaginei ser conhecido. Me apresento sempre de cabeça erguida, mesmo que ainda me sinta aflito antes de calçar o salto. Apesar de já ter conquistado prêmios, títulos e faixas, meu objetivo é conquistar espaço.


Como passista e como criança que cresceu assistindo os desfiles, não me sinto representado no Carnaval. Eu respeito a tradição do "malandro" e "cabrocha", mas acredito que dentro de uma ala de passista com 80 integrantes, há lugar para o "passista diversidade". Isso sim me representaria, afinal, a ala de passistas de uma escola de samba é uma ala da comunidade que reflete a sociedade. Na sociedade há muito mais do que dois gêneros.


Eu aprecio as escolas que criam alas LGBTQIA+. Todavia, isso exclui ao invés de incluir. Espero um dia ver uma sociedade onde pessoas LGBTQIA+ estão incluídas e possuem o mesmo valor do que os "malandros" e as "cabrochas". Até lá, continuo militando no meu samba de salto alto.


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